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Presente de ano novo

Atualizado: Mar 9

Era primeira semana de janeiro e fazia um calor danado quando uma mulher ligou dizendo que o corpo do ex-marido tinha sido encontrado no apartamento dela, e que o IML tinha acabado de retirá-lo. Ela estava em choque, transtornada, mas encontrou forças para nos ligar porque precisava que alguém limpasse a bagunça, afinal, tinha muito sangue no banheiro e no corredor do imóvel.




E o ex-marido tinha se suicidado. Ele sofria de depressão profunda e falou várias vezes para a ex-mulher e para a filha que iria se matar. Cansadas do mesmo discurso, ambas passaram a não dar mais atenção àquilo, e começaram a ignorar tal alerta.





Depois do Natal, o homem pediu à ex-mulher que lhe emprestasse o apartamento para passar o ano novo, pois alegou não ter para onde ir. Até hoje não sei o que houve, se ele não tinha casa própria ou queria estar em outro bairro no Reveillon. Ela concordou, já que ia viajar com a filha e o namorado. Deixou a chave com o ex-marido e foi. No ano novo, o homem ligou para a filha. Disse que estava muito triste, não estava aguentando e ia se matar. A moça ignorou. Ele falou com a ex. Ele repetiu a frase. Ela também deixou de lado.




Três dias depois, as duas perceberam que o homem parou de ligar. Então, telefonaram para ele. Várias vezes. Ele não atendeu. Preocupada, a mulher ligou para o síndico do prédio e pediu para ele ir até o apartamento dela ver o que estava acontecendo. O síndico foi ao local já imaginando o pior porque, nos últimos dois dias, tinha recebido reclamação de alguns vizinhos sobre um forte odor vindo daquele endereço. O síndico arrombou a porta. O cheiro era insuportável. Andou pela casa e, logo, encontrou poças de sangue e o homem enforcado no box do banheiro da ex. Antes de se pendurar numa corda, ele cortou os pulsos. Por isso, sangrou muito, muito mesmo.





Mas a desgraça não termina por aí. O IML foi buscar o corpo do falecido, mas não levou saco para colocá-lo dentro (o IML não tinha nem um saco preto!!!! Dá pra imaginar?). Então, deitaram o corpo no chão e o arrastaram pela corda em que o homem tinha se enforcado até a porta da sala, sem o mínimo de cerimônia! No meio do caminho, saíram batendo o corpo nas quinas das paredes, deixando pedaços do corpo, já em decomposição, de presente para a família. Foi aí que o síndico, que acompanhava toda a operação, perguntou, muito bravo: “Vocês vão arrastar o corpo até o elevador???”. Então, o IML pegou os lençóis da cama da mulher (lençóis chiques, por sinal), enrolou o corpo e o levou embora.





Quando chegamos, o apartamento estava um caos e a energia pesadíssima! Foi a limpeza mais difícil que fizemos. Eu e a minha colega Clícia limpávamos, esfregávamos, mas o sangue não acabava. Demoramos umas três horas só para conseguir limpar o box. O pior era o cheiro! Ele impregnou! O odor continuava mesmo depois de todo o apartamento ter sido limpo. A desodorização deu um trabalhão imenso.





O namorado da mulher vistoriou o serviço final e aprovou. Ele viu como o apartamento estava e como o deixamos. Parecia que não tinha acontecido nada no lugar. A mulher não teve coragem de ir ao imóvel por um bom tempo. E nós agradecemos por isso, porque ninguém merece perder uma pessoa querida de forma tão brutal e ainda ter que limpar as marcas da tragédia. Eu ainda me pergunto por que aquele homem fez aquilo. A ex-mulher e a filha devem carregar uma culpa gigantesca, e vão ter que conviver com isso para sempre.





Quando conto essa história para as pessoas, todas me questionam como eu, Francesco, consigo comer e dormir ao limpar esse tipo de cena e ouvir a história do fato. A verdade é que todos nós, da Biodecon, tivemos que aprender a focar apenas no trabalho. Entrar, fazer o que é preciso da melhor maneira possível, e ir embora. Tem horas que não dá para agirmos como seres humanos. Temos que ser, apenas, profissionais.



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