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O Cadáver do Suicida

Era novembro quando um rapaz ligou querendo saber como era uma limpeza pós-trauma e quanto custava. Eu, Clícia, disse que antes de responder qualquer coisa teria que fazer a vistoria do local. O rapaz passou o endereço e ressaltou urgência. Então, algumas horas depois fui com o Sergio até lá. O lugar era um condomínio de luxo num bairro de classe alta de São Paulo. O prédio abriga apartamentos enormes, um por andar, tapeçaria bonita, esculturas caras...

Quando chegamos, o mesmo rapaz que me ligou estava na porta do condomínio. Ríspido, ele perguntou se nós éramos do IML porque o corpo da pessoa ainda estava no apartamento. Na hora meu ímpeto foi dar as costas e ir embora. Eu não queria ver o cadáver de ninguém, pois nosso trabalho começa após a retirada do falecido, e não antes. Entrar num cenário de tragédia com sangue, sujeira, mas vazio é uma coisa. Com o corpo são outros quinhentos. Eu tremia só de pensar.

Policiais também estavam na porta aguardando o IML, já que se tratava de um suicídio. Nós nos apresentamos a eles e dissemos o que estávamos fazendo lá. Quando explicamos o que a Biodecon faz – limpar cenas de crime, suicídio, casa de acumuladores, desinfecções, etc. – os policiais ficaram super surpresos e empolgados. Um deles ressaltou animado que em Avaré, cidade Natal dele, não tem esse tipo de serviço. E nos chamou para subir com eles até o apartamento. Eu queria voltar outra hora, mais tarde. Mas o Sergio quis ficar e ir lá ver, já fazer a vistoria. Tive que ir junto.

Pegamos o elevador. Meu coração estava acelerado e minhas mãos suavam frio. Chegamos. Fui entrando e o policial começou a filmar. O corredor era comprido e escuro. Apenas algumas lâmpadas de LED estavam acesas. Parecia filme de terror. Eu ia me aproximando e, do corredor, já dava para ver as pernas do homem no chão. Ele tinha dado um tiro na própria cabeça, mirando do queixo para cima. Metade do corpo estava na cama e a outra parte estava pendurada.

A cama estava encharcada de sangue fresco, com aquele vermelho vívido. O lugar só não estava pior porque a bala ficou alojada na cabeça do homem. Então, não tinha sangue nem pedaços de cérebro e crânio espalhados pelo teto ou outros cantos do quarto. Segundo a polícia, chegamos três horas após o ocorrido. Ou seja, tinha acabado de acontecer. Fiquei chocada e não conseguia tirar aquilo da cabeça.

A vítima era um homem alto de aproximadamente 1,90m de altura, e cerca de 60 anos de idade. Era muito bem de vida, tinha família, mas morava sozinho naquele apartamento imenso. Quando fomos embora, o IML ainda não havia chegado.

Voltamos no dia seguinte para fazer a limpeza do imóvel. Quando entrei senti um leve cheiro de ferro por causa do sangue. O corpo tinha sido retirado. Mas eu o via lá. Se eu estivesse sozinha naquele apartamento com certeza não conseguiria fazer o meu trabalho. Estávamos em três pessoas naquele dia.

Primeiro tiramos o lençol, colocamos em dois sacos plásticos – porque tinha muito sangue - e depois colocamos na barrica, um tambor de papel grosso. Enquanto isso, o Francesco limpava o chão com panos e um produto específico. Tiramos os travesseiros e o colchão da cama. Três camadas ainda tinham sangue líquido, que se infiltravam nos tecidos e vazavam com facilidade. Enquanto limpávamos, familiares esperavam na sala. Eles achavam que nosso trabalho era só tirar o colchão do quarto. E não é. Primeiro temos que cortar o colchão em pedaços para caberem nas barricas. Depois separamos as partes que têm sangue das que não têm para serem incineradas. As sem sangue descartamos em locais apropriados. Nunca deixamos lixo para trás. E eu lá, toda paramentada, agachada em cima do colchão cortando tudo aos poucos com estilete e me lembrando da cabeça daquele senhor pendurada ali.

Foram três horas de trabalho e a imagem que não saía da minha mente. Não tenho ideia do que pode ter motivado aquele homem a tirar sua própria vida. Mas é uma cena que não quero presenciar nunca mais.





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